Compliance, de Craig Zobel

Os trabalhadores aprenderam a importância da submissão: obedecer mais, questionar menos. Desconfiar das instituições não é algo aceitável, ainda mais quando uma voz, do outro lado da linha, parece confiável e representar a ordem.

Isso ajuda a explicar duas questões em Compliance, de Craig Zobel: os funcionários de uma lanchonete fast-food – da gerente à jovem caixa – são vítimas da submissão e acreditam cegamente no que parece confiável. Aprenderam a obedecer como um cliente dessa mesma lanchonete, em busca de satisfação rápida.

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O drama, aqui, é acreditar em outros e desconfiar de alguns. Aparenta, no fundo, ser algo extraordinário, mas o que ocorre tem particularidades comuns aos fundos de empresas nas quais cada passo é vigiado, com câmeras e salas reservadas.

É a história de uma crença disseminada, de como a gerente Sandra (Ann Dowd) confiou mais em uma voz, ao telefone, do que em sua funcionária, Becky (Dreama Walker). São mulheres de tempos diferentes, de olhares diferentes, e é importante observar como Zobel expõe diferenças físicas em uma história sobre o poder.

Certo dia de trabalho, Sandra recebe o telefonema da polícia, que diz ter aberto uma queixa de furto, ocorrido no balcão da lanchonete fast-food. Becky teria roubado um celular e levado um pouco de dinheiro também.

A moça, principal vítima entre tantas, é então convidada a se “abrir”: deverá fazer o que o homem do telefone mandar, o suposto policial, enquanto um intermediário – Sandra, seu futuro marido Van (Bill Camp) ou qualquer outro funcionário da lanchonete – acompanha. Deverá se expor ao máximo: retirar as roupas, deixar-se examinar.

Eis uma questão interessante: o que está em jogo – por trás de um trote de contornos diabólicos e, em certa medida, pouco explicado – é a exposição à qual todas as pessoas estão legadas em um meio em que todos são vigiados, sob o manto da suposta boa convivência, da propaganda da comida “deliciosa”, enquanto se finge respeito.

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As primeiras imagens trazem detalhes dessa sociedade: partículas quase sempre invisíveis de um cotidiano opressor. Primeiro, os detalhes da rua, da urbanização. Depois, os costumes, as palavras baixas, o jeito de se comportar. Aos poucos, tudo é colocado às claras quando aquela voz autoritária passa a ditar as regras, a controlar. Em seus medos, talvez as pessoas gostem do controle.

Todos fraquejam, todos são levados para instantes de dúvida logo transformados em suposta certeza: aquela moça ao centro, a vítima principal, tem um jeito fácil, jeito de fazer algo errado, como furtar. É o que deve ter pensado Sandra, ainda mais frágil que a moça – talvez a verdadeira vítima em cena.

Compliance tem momentos difíceis de engolir. Até mesmo o espectador menos avisado deverá desconfiar de tanta submissão sem o mínimo questionamento – ou mesmo sem ver o que está por trás da tal voz autoritária. A certa altura, fica evidente que não se trata de um policial. As personagens demoram a descobrir isso.

Essa demora enfraquece o resultado final. Como podem viver sem desconfiar da mentira? Ou estariam mergulhados no desejo de punição? A crítica maior, ao que parece, dirige-se ao meio, não às personagens. Isso explica porque o cineasta traz detalhes da comida e das pessoas (clientes) naquele local em que tudo parece normal, em que o consumismo é maquiado, em que a caixa de jeito fácil não pode parar de sorrir em momento algum. Sandra crê na proximidade com o cliente, mas ela não existe.

O principal não está na descoberta do criminoso ou naquilo que o move. Ao centro dessa trama inspirada em fatos reais estão os erros de Sandra, mulher frágil e sem poder de comando. Ela acredita no outro enquanto busca uma maneira de punir Becky. Sua entrevista, ao fim, revela um ser vulnerável e deslocado. Nesse meio, todos são vulneráveis sem saber, naturalmente submissos.

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