Parceiros da Noite, de William Friedkin

O mundo policial é tão reservado quando o mundo gay, com suas festas e locais privados, nos quais se celebram encontros entre homens e a libertação. Os frequentadores se vestem como policiais e, a certa altura de Parceiros da Noite, de William Friedkin, um policial terá de se infiltrar ali para encontrar um assassino.

Nesse terreno de podridão feito por Friedkin, os lados invertem-se: policiais são os homens da noite, homens da noite são os policiais. Tudo vale, seja no campo do sexo ou da violência – ou quando as coisas andam lado a lado.

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Lançado em 1980, o filme de Friedkin causou repulsa na comunidade gay americana. Houve protestos, pedidos para que o filme fosse retirado dos cinemas. Ao que parece, essa comunidade não suportou ver tal retrato daquelas festas e daqueles homens, quando a homossexualidade mescla-se ao desejo de matar.

Mas o que talvez muita gente não tenha reparado é que a homossexualidade, aqui, não é o mais importante, tal como a espera pela solução do caso. Parceiros da Noite não é um típico filme policial em que se persegue cada pequeno rastro deixado pelo criminoso. É um filme sobre um homem seduzido pelo lado aparentemente liberal dessa América, quando as ruas levavam a pensar em obras como Taxi Driver.

Esse homem, o espectador descobrirá mais parte, pode se tornar um novo assassino quando passa a perseguir o causador de todo aquele mal. Os jornais estampam manchetes falando sobre o assassino dos gays e sobre suas novas vítimas.

O policial infiltrado é Steve Burns (Al Pacino). Em sua investigação, há uma entrega total, ou quase: passa a viver próximo àqueles homens, em seu meio, em suas festas, em suas escapadas à rua ou aos parques para ter prazer com um pouco de dor. O criminoso, explica o chefe de Burns, mata homens com prazer em sentir dor.

Enquanto leva essa vida paralela, Burns visita sua companheira. Aos poucos, ele começa a mudar. O filme erra ao não apostar completamente em sua transformação ou simplesmente em se deixar levar pela trama policial. Tenta – e nem sempre consegue – ser as duas coisas ao mesmo tempo, com um encerramento surpresa e ambíguo.

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A obra tem estranheza e exotismo. Antes de chegar ao verdadeiro assassino, Burns descobre outro rapaz, um novo suspeito. Chega a sair com ele e o mesmo é levado à polícia para ser interrogado. A certa altura, um grande homem negro, forte, praticamente nu, entra na sala para agredi-lo. Como poderia um policial estar vestido daquela forma, em uma delegacia? Friedkin mais uma vez inverte os lados.

Mulheres por ali perdem a vez e talvez terminem como vítimas. Os homens, diz o diretor, são pessoas estranhas, de desejos estranhos, e é impossível entendê-los.

Há, portanto, certa crise em Burns quando passa a mergulhar mais e mais naquele submundo. Poderia ser um ambiente com homens e mulheres e é certo que existem locais como aquele formado por pessoas de diferentes sexos. Friedkin, contudo, deseja contar uma história de homens, de brutalidade, de surpresas quando o policial ao centro passa a ser consumido pelo universo ao qual é levado em nome do trabalho.

Burns não diz muita coisa com alguma clareza. É silencioso, talvez um prisioneiro de novos desejos. O diretor apresenta seu olhar em meio àquelas festas. Parece fazer parte delas enquanto luta para não estar ali. Mas é seu trabalho e não há muito a fazer.

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O filme começa com a cidade, a bela cidade grande, símbolo da prosperidade. Em seguida, um braço em decomposição surge nas águas escuras que banham Nova York. Há algo errado próximo àqueles grandes prédios, submerso.

Nas festas, grandes algemas alimentam o fundo. Enfeites. Burns caminha por ali e observa com estranheza o sexo bruto entre homens molhados pelo suor e pela excitação. Pouco depois, os donos da festa querem saber quem é ele, pois não se encaixa ao meio. Uma estranha relação surge nesses ambientes, quando signos do mundo policial são usados de forma invertida: representam não mais a prisão, mas a liberdade.

Parceiros da Noite é sobre pertencer e sobre monstros que surgem do medo em pertencer. O assassino sofre e mata porque pertence, pois ainda é assombrado pelo fantasma do pai morto – talvez um homofóbico – de voz grossa, mental e punitiva. Burns, por outro lado, é levado a pertencer como única forma de chegar ao fim de seu trabalho e, assim, ser promovido. Perde o chão quando percebe que não se trata apenas de um trabalho. Sente-se atraído.

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