A Prova do Leão, de Cornel Wilde

Os nativos que perseguem o homem branco, em A Prova da Leão, embarcam em um jogo. Os lados invertem-se: não são apenas os homens brancos, em um safári, que estão dispostos a se divertir nessa África selvagem e perigosa.

O diretor e ator Cornel Wilde, para a felicidade ou não do espectador, está mais interessado no suor de sua personagem do que em levar ironia à tela. O homem perseguido não é ruim como seus companheiros mortos, brancos, mas recairá sobre ele o ódio do nativo, resultado de uma relação nada amistosa entre esses lados.

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A Prova do Leão começa com os animais perigosos da África. Uma leoa arrasta sua presa. A selvageria impera. O narrador diz que os homens não compreendem outros homens e se tornam bestas por isso. É esperar para ver: o homem, Wilde, será a “presa nua”, ou quase, aos olhos dos nativos, naquele jogo insano, ou apenas um passatempo.

A obra demole a ideia do nativo como ser sempre bom, corrompido pelo visitante. Demole, ainda mais, a suposição de que apenas o branco está disposto a matar para se divertir. Em A Prova do Leão, todos os lados estão em um jogo.

Antes de ser capturado, solto, caçado, o homem (Wilde) sai como um ser aparentemente civilizado pela mata – sai de um castelo branco (ao qual o espectador não será levado) e caminha, como um líder, à frente de todos, vestido de branco.

Antes, ele destoa de tudo, ou quase tudo. Há outros homens de branco nesse safári. Um deles, responsável por bancar a empreitada, quer caçar, fazer muitas mortes, lucrar.

Ele e o protagonista não se dão bem. Em certo sentido, nem sempre claro como se espera de um filme como tal, o outro homem pode ser o lado obscuro do protagonista: aquela forma que deixa revelar o desejo pela morte e o pior dos homens possíveis.

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“Mataremos muito”, diz ele, como se a África fosse um campo de diversões. Após a matança de alguns elefantes, há uma discussão entre ambos. A personagem de Wilde lembra que, apesar de o dono do safári ter matado mais animais do que ela, alguns dos bichos abatidos não tinham marfim. Ou seja, as mortes não eram necessárias. “Então acertei por puro esporte”, completa o outro homem, em frase que moverá o filme.

O jogo maior vem em seguida, esse tal esporte. Wilde, um tanto esquemático, contrapõe a morte dos elefantes à morte dos homens – tal como faz ao jogo. Impossível não fazer essa relação e perceber a vítima também como culpada.

Apenas com um pano para esconder as partes íntimas, o protagonista tem de sobreviver ao grupo de nativos em seu encalço: corre sem parar e é possível ver o brilho de seu corpo, o efeito de seu suor, tal como a marca do tempo em cada curva da musculatura de Wilde – com 53 anos quando o filme foi lançado.

Além da caçada, do esporte, a obra pode ser descrita como uma luta do homem contra a natureza. Wilde contrapõe uma cena em que ele mesmo, ao acordar, tem fome ao passar a mão sobre a barriga àquela em que nativos entram e saem da barriga de um elefante morto. Em outro momento, o herói está ao chão e é observado por um grande pássaro – provavelmente com fome também, à espera de uma presa fácil.

É provável que A Prova do Leão pareça pobre em sua visão sobre a relação entre o branco caçado e os nativos malvados, entre colonizador e colonizado: uma maneira de levar o causador dos males do continente africano à condição de culpado.

Por outro lado, é provocador ao não aliviar a situação de ninguém, à exceção do próprio protagonista. Assim, gera ainda mais revolta, ao mesmo tempo alívio, quando se vê o sorriso – enfim, após tanta dor – desse homem frente a uma criança, um nativo. Para o diretor e ator, a relação entre esses lados ainda tem salvação.

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