Drive, de Nicolas Winding Refn

Chama a atenção, em Drive, de Nicolas Winding Refn, a troca de olhares entre as personagens de Ryan Gosling e Carey Mulligan. A criança ao meio – o filho dela – é a chave à aproximação.

Difícil ver um assassino por trás desse homem – como ver nela, pequena e frágil, alguém capaz de trair o marido preso, que depois retorna. Drive, antes dos assassinatos e acertos de conta, é sobre a dificuldade de manter a aparência do bom homem ou da mulher ideal.

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Isso explica, talvez, porque o motorista sem nome (Gosling) coloca uma máscara, a certa altura, quando sai em busca de um mafioso (interpretado por Ron Perlman). Pelo vidro da porta da pizzaria do vilão, ele observa um suposto mundo feliz e de socialização: pessoas riem, divertem-se, enquanto ele – e sua máscara – não transmite qualquer expressão, apenas o indicativo de profundo vazio.

O que quer é apenas cumprir o novo papel: matar seu oponente com uma nova identidade, uma máscara e, quem sabe, voltar ao homem passado.

Em Drive, esse motorista divide suas horas entre os estúdios de Hollywood, como dublê de cenas de ação perigosas, em carros; a oficina do melhor amigo e mentor, o manco Shannon (Bryan Cranston); e as corridas noturnas, em transportes perigosos com bandidos no banco de trás. Seu crime é dirigir e suas regras são claras: em cinco minutos, se os criminosos não retornarem, o motorista abandona o posto e coloca tudo a perder – menos ele próprio.

O motorista, por sinal, tem ar de cavaleiro solitário, vingador sem nome, de instintos assassinos que brotam do rostinho aparentemente sem dor, sem ódio e, por isso, capaz de conquistar a mulher.

De alguém como ele, a bela e sorridente Irene (Mulligan) pode esperar qualquer coisa – um pai, um motorista, um ombro para as noites de solidão e uma companhia para o filho.

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Tudo muda quando o marido dela, Standard (Oscar Isaac), sai da prisão. Uma vida anterior retorna e explicações são desnecessárias: os olhares anteriores entre os amantes desaparecem, tornam-se impossíveis – e a possibilidade de uma boa vida dá vez a um inferno. O motorista sem nome, para ajudar a mãe e o filho dela, vê-se obrigado a ajudar o pai recém-saído da prisão, que deve favores a criminosos.

Quanto mais Refn tenta escapar à corrida comum ao embutir detalhes caros e interessantes, mais o filme termina vítima de situações conhecidas, das navalhas que brotam das mangas, das ligações telefônicas ameaçadoras.

Ao se conectar apenas às máquinas, o protagonista vive em um lugar à parte. Ao tentar se conectar à vida em família, com um mulher e uma criança, descobre que novos problemas surgirão. Em um curto espaço de tempo, um beijo em câmera lenta e uma morte com golpes de fúria dividem o mesmo espaço. Ternura e sangue em igual medida.

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