Margaret, de Kenneth Lonergan

Um acidente, ainda que fundamental à transformação da protagonista, não retira Margaret de seu foco: as descobertas, os tropeços e as dores da jovem Lisa Cohen, vivida por Anna Paquin.

No filme de Kenneth Lonergan, o acidente é um ponto de virada. Ou de recomeço. Une três partes desconexas: Lisa, o motorista do ônibus e a mulher atropelada.

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O choque tem sua importância. É o acidente que mostrará à menina as portas da seriedade e do mundo adulto – com muito sangue levado ao corpo da garota. Lisa não escapará dessa experiência.

Mais tarde, ela sai à procura do motorista do ônibus que matou a mulher e envolve outras pessoas na reabertura do caso. Não consegue viver com um falso testemunho.

Sem o acidente, pouco ou nada mudaria: Lisa teria os mesmos meninos a encontrar, os mesmos professores a cortejar, os mesmos bate-bocas em sala de aula – enfim, uma vida de estudante perto de perder a virgindade e de abortar, em conflito com a mãe e em longas conversas com o pai distante, ao telefone.

Isso não quer dizer que os processos da adolescência não tenham importância. Ao contrário, Lonergan dá o peso dramático a cada pequena parte e o acidente ocupa uma entre elas, ao mesmo tempo em que aponta a uma busca.

Com o acidente, Lisa encontra algo trágico e real. Algo a ocorrer em lugar nenhum senão na rua. A família leva à arte: a mãe, vivida por J. Smith-Cameron, é atriz de teatro e o irmão está sempre ao piano.

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A adolescência, diz Lonergan, é convulsiva e confusa. O texto é mais complexo do que parece: torna a moça uma acusadora, justiceira, com o desejo de vingança. O texto não transforma o motorista – nem ninguém – em monstro. O mal está no interior das personagens.

Tudo passa pela sequência do acidente: pelo rosto da menina que deseja se comunicar, pelo motorista que não entende nada, pelos olhares, erros, distrações e pelo sinal vermelho. Também pela vítima.

A sala de aula tem seu peso e seu espaço: às vezes como um campo de batalha, às vezes como campo às várias vozes ou simplesmente à forma do professor autoritário, que não aceita um segundo ponto de vista sobre Shakespeare. Talvez seja esse o grande drama em Margaret: a dificuldade de se reconhecer mais de uma versão possível. Um problema de ponto de vista.

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