Entrevista: Antonio Nahud

Para abrir a seção de entrevistas, um blogueiro e apaixonado por sétima arte: o jornalista e escritor Antonio Nahud, autor de sete livros e, durante alguns anos, correspondente de diversos veículos de comunicação na Europa, onde foi viver em 1994. Apesar de não se considerar um crítico de cinema, Antonio não perde tempo quando o assunto é opinar. Solta o verbo em seu blog, cujo título faz clara homenagem ao cinema clássico: O Falcão Maltês – Uma Viagem Pessoal Pela História do Cinema.

“Muitos filmes considerados clássicos hoje, fundamentais para a história do cinema, foram produzidos com finalidade comercial em primeiro lugar”, ele afirma. Antonio vive hoje em Natal, no Rio Grande do Norte e finaliza um livro de contos que será lançado ainda este ano, Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano. Abaixo, a entrevista completa:

Seu blog, O Falcão Maltês, já apresenta, de cara, uma homenagem ao cinema clássico, em um filme não apenas grande, mas um divisor de águas. Como nasceu a paixão pelo cinema clássico e por que escolheu este filme de título para seu blog?

Sou fascinado por filmes, de ontem e de hoje. Vejo com o mesmo prazer um bom filme mudo da década de 20 ou o mais recente Martin Scorsese. Vou e volto no tempo cinematográfico com facilidade e sem traumas. Porém, não nego que o noir é o gênero que mais me atrai, assim, para mim, nesse momento vigoroso da década de 40 o cinema se destaca, trazendo ecos do passado e influenciando filmes futuros. O Falcão Maltês não é o meu noir favorito, mas – como muita gente – considero-o o “pai” do gênero. Uma noite, assistindo-o pela terceira ou quarta vez, tomei algumas anotações e tive vontade de compartilhá-las publicamente. Assim surgiu o blog em outubro de 2010.

Com a internet, o público chega mais facilmente aos filmes antigos, antes esquecidos?

Com certeza. Vejo um verdadeiro tráfico cinéfilo clássico na net. Troca-se impressões, descobre-se artistas esquecidos, valoriza-se identificações, indica-se onde encontrar determinados filmes raros. Conheço cinéfilos com menos de 20 anos completamente seduzidos pelo universo do cinema clássico. E muitas vezes dão show de competência em seus blogs. Caso da Lê, do Crítica Retrô, que tem apenas 18 anos de idade.

Muita gente acusa o cinema norte-americano moderno, sobretudo aquele feito depois dos blockbusters dos anos 1970, de ser infantilizado. Sempre os mesmos temas, as mesmas saídas cômicas e aventureiras para vender ingresso. O cinema norte-americano ficou mais pobre depois dos anos 1980?

Os blockbusters sempre comandaram o espetáculo. Isso acontece desde os primórdios do cinema mudo. … E o Vento Levou ou Ben-Hur, por exemplo, são típicos produtos blockbusters. Só que de outra época, com outros conceitos, outras técnicas. Sinceramente, não sou nostálgico, acho que sempre tivemos filmes comerciais e outros mais, digamos assim, artísticos. Só que, inexplicavelmente, certos momentos são mais pródigos em talentos; outros, mais escassos. O que acontece com o cinema norte-americano das últimas três décadas é que se pode contar nos dedos os grandes cineastas. Mas isso não quer dizer que será assim eternamente.

Mas antes, durante o cinema clássico, já não havia alguma infantilização? Não se abordava o sexo de forma aberta, o mundo era colorido demais…

Exato. Como disse, sempre houve a manutenção dos dois lados da questão. A fantasia pueril e o produto comercial nunca deixaram de estar no topo. Muitos filmes considerados clássicos hoje, fundamentais para a história do cinema, foram produzidos com finalidade comercial em primeiro lugar. O problema não é esse. A questão é período pouco criativo, banal, do cinema hollywoodiano atual.

Em uma entrevista em seu blog, você diz que, entre os piores filmes que viu no ano passado, está o Além da Vida, e, entre os melhores, A Árvore da Vida. Às suas maneiras, são filmes religiosos, sobre a abordagem da vida após da morte, talvez. O cinema é uma maneira de trazer o homem para perto de certa espiritualidade? Não acha que, com mais simplicidade e narrativa linear, Além da Vida consegue melhor o seu propósito de comover e se aproximar do público?

Não disse que Além da Vida é detestável. Clint Eastwood jamais seria desprezível. Como tenho uma certa aversão a shoppings, só vou ao cinema depois de uma triagem rigorosa, ou seja, para ver filmes que já tenha alguma afinidade indispensável. Dentre esses, que já fazem parte de uma “categoria especial” no meu universo de cinéfilo, em 2011, Além da Vida não me empolgou o suficiente. Mas tem um bom roteiro e Eastwood domina um tema delicado com habilidade. A Árvore da Vida é outra coisa, uma obra complexa, hermética, poética, difícil, está além de seu tempo.

Você faz parte daquele grupo de cinéfilos que, entre os dez melhores filmes que viu na vida, todos são antigos, em geral em preto e branco?

Vixe… Deixe-me pensar um pouquinho… Creio que todos os dez melhores filmes que vi na vida são antigos. No máximo essa lista chegaria a Gritos de Sussurros, de Bergman, ou Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola, nos anos 1970. Mas nem todos são em preto e branco. Cantando na Chuva, por exemplo, é um espetáculo de cores.

O que torna possível amar obras tão diferentes como um melodrama de Douglas Sirk e um filme contemplativo de Tarkovski, por exemplo?

O talento e nossas identificações particulares. O talento supera o gênero, o conteúdo, a própria obra. Sou capaz de amar da mesma forma o cinema seco, sombrio e silencioso de Jean-Pierre Melville como o cinema verbal, literário e sofisticado de Max Ophuls.

Entre as grandes figuras conhecidas que entrevistou, como Carlos Saura e Bernardo Bertolucci, lembra de alguma particularidade, algo despercebido pelos fãs, que lhe marcou?

A grande maioria de minhas entrevistas foi feita em coletivas, festivais de cinema, lançamentos cinematográficos. Tudo muito superficial, muito profissional e com o tempo cronometrado. Mas me surpreendi muitas vezes. Por exemplo, com a afeição de Bertolucci pelo cinema brasileiro, o bom humor de Woody Allen, a inteligência de Isabelle Huppert, o esnobismo de Catherine Deneuve, a densidade espiritual de Irene Papas, a informalidade de Almodóvar, a sensualidade intacta e simplicidade de Sophia Loren, a beleza sedutora de Ewan McGregor, a magreza assustadora de Penélope Cruz, o tipo amigável de Javier Bardem, a exuberância de Stefania Sandrelli etc.

Como seu blog faz referência a um filme noir, não posso deixar de perguntar: qual o maior anti-herói do cinema? Não vale o Sam Spade… (risos)

Gosto muito do George Eastman de Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol, de George Stevens. Ele é ambicioso, infiel, alpinista social e um assassino involuntário, mas não deixamos de nos apaixonar por ele, torcendo para que supere essas deficiências de caráter e fique com a linda mocinha Liz Taylor no final da fita.

Qual o maior medo de um cinéfilo: ficar cego ou perder a memória?

Cruz credo. O que responder? Posso dizer que algumas vezes pensei como seria torturante viver sob o domínio da cegueira. Quase tudo que amo exige o olhar, a visão. Já perder a memória seria uma lástima, mas acontecendo, de nada lembraríamos, não haveria saudades ou conflitos. A cegueira se impõe. Você está com a mente acesa, e também proibida para muitos prazeres. Deve ser terrível. Lembro do escritor argentino Jorge Luís Borges, um cinéfilo que perdeu a visão. Felizmente ele passou o resto da vida recordando detalhes preciosos dos filmes que viu. Não é o meu caso. Minha memória não é tão detalhista. Estou sempre revendo filmes para recordar-me de certos aspectos.

E, quando a memória vai lá no fundo do baú, qual imagem ela resgata, qual aquela que lhe marca, que faz toda a diferença em sua vida?

Não sou felliniano. Dos mestres italianos, é o que menos me atrai. Mas quando vou lá ao comecinho da paixão cinéfila, o filme que surge é Amarcord, de 1974, que vi nos anos 80, em um cinema de arte. Ele marcou minha adolescência, mudou minha vida intelectual e me fez compreender que o cinema me ajudaria a não sucumbir às desilusões do cotidiano. Portando, a partir de Amarcord, assim como a Mia Farrow de A Rosa Púrpura do Cairo, o cinema tornou-se vital para mim. Inclusive, em momentos de crise, desabafo assistindo filmes, e muitas vezes me revigoro, partindo de novo à luta com renovada disposição.

Rafael Amaral (08/02/2012)

8 comentários

  1. Nahud é um fera e sempre que tenho o prazer de encontrá-lo aprendo muito, assim como lendo O Falcão Maltês. Posso dizer que foi uma das minhas influências para começar a estudar o cinema. Estou no início… mas um dia chego lá. Tudo de bom para ele para o esse belo blog!

  2. Amigos do cinema antigo,
    Difícil comentar uma ” bela conversa” como essa, recheada de detalhes.
    Porém queria comentar, porque não vi mencionado, o título do blog do amigo entrevistado, O Falcão Maltês, é o título de um filme de Humphrey Bogart, onde o Falcão Maltês é uma pequena estátua que é o objeto de procura no filme todo, mas o que mais interessa é o clima de mistério, supense e policial….acho que é isso. Já li, que está na lista dos melhores filmes do mundo.
    Outra consideração, de leve, é sobre Clint Eastwood. Grande e saudoso ídolo dos nossos farwest americano em troco ao spaghetti italiano. Em seguida Clint continuou famoso com a série Harry, o sujo, policial e seguiu fazendo alguns filmes, depois de ser prefeito de sua cidade e já no ocaso da carreira, dizem que brilha como Diretor. Mas o Clint tem uma marca registrada que não fugiu nunca em sua carreira, mesmo em Cartas para Iwogima. É o estilo do Americano amargurado, injustiçado que de repente resolve jogar tudo pro alto e se tornar um herói. Seus personagens, assim como Stalone, não prima geralmente pelo diálogo; normalmente é o solitário, com filmes cheios de sombras, pouca conversa e muita ação…mas sempre muito sombrio…
    abç

    1. Olá, José Cláudio. Sobre o Falcão Maltês, o blog e o filme são citados. Impossível entrevistar alguém como o Antônio e não esbarrar nesta grande obra. Valeu os pontos de vista e a visita. Volte sempre.

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