A Difícil Arte de Amar, de Mike Nichols

O que primeiro se impõe em A Difícil Arte de Amar é o abismo entre sexos. Meryl Streep, de um lado, é o ponto de emoção, de fragilidade – o ponto mais próximo do público, ao qual a câmera volta-se para revelar.

Ocorre exatamente isso na sequência em que ela está no cabeleireiro, rara ao cinema americano da época. Basta o movimento rumo à atriz, a seu rosto no espelho, para o espectador descobrir o que pensa a personagem, e o que muda os rumos do filme.

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Nessa difícil vida a dois, ainda que prazerosa, Rachel Samstat (Streep) descobre que está sendo traída. Há algo a destacar: na cena em que nada parece ocorrer, o diretor Mike Nichols mostra o que está em jogo, que tudo está perto de desmoronar: é o ponto em que o espectador descobre o “sentimento feminino”, o faro, a percepção.

E não se trata de dizer que o sexo feminino é mais fraco – mesmo contra um sempre demoníaco Jack Nicholson. Na aparente fragilidade, tem-se o dilema de uma vida toda: como se desviar desse homem com quem Rachel tem um filho, e de quem espera outro? Como escapar dessa vida a dois à qual tanto se habituou?

Em um belo momento, Streep vaga pela rua, desnorteada, em busca de um táxi; em outro, desesperada, corre para a casa do pai, na qual está o filho, apenas para colocar o telefone no gancho, na esperança de que seu companheiro volte a procurá-la.

Nicholson, antes, é o homem, a rocha: sua primeira cortesia à futura companheira, quando se encontram pela primeira vez (em uma igreja), expõe, de cara, o risco, ao mesmo tempo o desejo. Ela não tem dúvidas.

Entranha de sentimentos, mas nada muito profundo. A direção de Nichols, com a fotografia de Néstor Almendros, concentra forças na leveza sem nunca comprometer o público com o que parece impossível à “vida real” – tudo contrário ao melodrama, embalado pela suposta sofisticação dos relacionamentos adultos.

O roteiro de Nora Ephron, baseado em seu próprio livro, não pretende ser uma história de amor – pelo menos não é o que Nichols traduz. O universo feminino prevalece, com a insistência em captar as dores da protagonista e suas expressões.

Em Mark Forman, até o fim, vê-se o próprio Nicholson, ou seja, o ator, o homem, o contraponto difícil de explicar. A culpa não recai sobre ele. A vingança é driblada, dá vez à mulher que junta forças para dizer “não” sem recorrer à tradução.

(Heartburn, Mike Nichols, 1986)

Nota: ★★★☆☆

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O Conto dos Contos, de Matteo Garrone

O primeiro conto é sobre a maternidade, o segundo sobre a juventude, o terceiro sobre a liberdade – ou sobre o aprisionamento. Em todos, dois reis e uma rainha flertam com a monstruosidade. O poder aproxima-se do repulsivo.

O que fica claro em uma das imagens conhecidas de O Conto dos Contos, de Matteo Garrone: a bela rainha de Longtrellis (Salma Hayek) devora o coração de uma fera. Segundo um bruxo, se seguir alguns de seus ensinamentos ela poderá realizar seu grande sonho: ser mãe. A maternidade, nesse caso, ligada ao poder.

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A fera gera dois filhos. O segundo sai do ventre de uma plebeia, como se seres idênticos fossem possíveis em polos distantes, ou aparentemente distantes. Essa união torna-se um problema, no futuro, para a rainha: seu filho ama mais o duplo do que ela própria. Está disposto até mesmo a escapar de um labirinto para estar com o outro.

Os três contos correm em paralelo. O segundo, sobre a juventude, leva ao rei de Strongcliff (Vincent Cassel), que precisa se alimentar de juventude. É mais mulherengo do que poderoso. E quando fica frente a frente com uma mulher mais velha, talvez uma bruxa, logo pede que seus soldados lancem essa personagem pela janela.

É que ele teve de passar uma noite com ela. Não poderia imaginar que a mulher fosse tão feia, ou tão deformada. Ela entrega-se no escuro, única condição para invadir o quarto do rei. Ele aceita e depois não suporta o que a luz revela-lhe na manhã seguinte.

Mas a bruxa logo se torna bela, de pele perfeita, à qual as curvas da ninfeta Stacy Martin cabem à perfeição: com cabelos vermelhos e longos, nua em uma floresta, torna-se a personificação da busca do rei: a beleza e, claro, a juventude.

Na incursão de Garrone pelo poder em excesso, até chegar ao grotesco, o absurdo faz-se presente. Sempre entre belezas, grandes palácios, artistas circenses que divertem os poderosos e labirintos que dão a ideia de um mundo como tabuleiro.

Há ainda a história de um terceiro rei, no conto sobre liberdade. O pequeno líder, o rei de Highhills (Toby Jones), não deixa a filha se casar e, certo dia, fica fascinado por uma pulga. O parasita chupa seu sangue. O rei permite. E mais: passa a alimentar o animal para que cresça, tratado como um cão que dorme em seu quarto.

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A pulga é vítima de sua própria condição, vivendo apenas para se alimentar. Sintomático que nesse filme sobre poder e tantas coisas grotescas, a partir do livro de Giambattista Basile, o rei pareça preferir o parasita à bela filha aprisionada no castelo.

E, quando resolve casá-la, colocará antes sua condição: o noivo terá de descobrir que animal é dono do grande couro branco exposto em uma das salas do castelo, onde súditos e pretendentes amontoam-se para cheirar essa peça vinda da pulga.

É pelo absurdo que este filme estranho, não menos belo, chega ao espectador: suas personagens sempre tomam novos rumos, lambuzadas de sangue, em um universo fantástico de dragões, grandes morcegos, bruxas, ogros e artistas itinerantes.

O coração da grande besta, no início, continua a bater mesmo fora do corpo. A rainha leva-o ao castelo como objeto precioso, enrolado em um pano. Será seu banquete, na mistura do ambiente branco com o vermelho do sangue e da carne.

(Il racconto dei racconti – Tale of Tales, Matteo Garrone, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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O Lugar Onde Tudo Termina, de Derek Cianfrance

O jeito bruto é quebrado, em poucos momentos, pela presença de um bebê. Dois homens carregam essa criança em diferentes circunstâncias de O Lugar Onde Tudo Termina, de Derek Cianfrance. Um deles é criminoso, o outro um policial.

A história de ambos esbarra-se por acaso, quando o primeiro, transformado em ladrão de banco, é perseguido pelo segundo. Poderiam não ter qualquer ligação, poderia ser apenas um caso policial corriqueiro. É a criança que muda tudo. A história de um termina quando inicia a do outro – conectados mas ainda distantes.

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O desfecho é até previsível: o espectador descobre logo que os filhos desses homens devem se encontrar em algum momento, entre idas e vindas, quando o filme dá sinais de que nada é por acaso. Luke (Ryan Gosling) é o primeiro a se apresentar: de costas, com o corpo repleto de tatuagens, ele segue para a tenda de circo na qual se apresenta. O público aguarda-o. É um motociclista no espetáculo do globo da morte.

O policial entra na história por acidente, quando um colega de profissão não consegue alcançar Luke, após um assalto a banco. A vida de Avery (Bradley Cooper) muda de repente: ele consegue matar o criminoso em circunstância estranha, da qual retira o título de herói – para a imprensa, para os amigos da polícia, para toda a sociedade.

A verdade é outra. A circunstância que muda tudo nada tem de heroica ou covarde. Cianfrance repele o retrato fácil, o escapismo que ora ou outra, no cinema, leva ao confronto entre seres treinados, destemidos: o cineasta molda a história de dois homens que tentam mudar o passado, seres tocados pela imagem da mesma criança.

Luke, ao descobrir que é pai, deixa o trabalho no circo e se estabelece. Tipos como ele não são difíceis de decifrar, crê o espectador. Mas isso pode ser enganoso: o rapaz, apesar de violento, ainda demonstra devoção ao filho. Quer ter raízes, busca dinheiro.

Reaproxima-se da mãe do bebê, companhia de apenas uma noite, a garota que, meses antes, quando ele passava pela mesma cidade, deixou-lhe boas lembranças. É a mãe de seu filho, Romina (Eva Mendes), que passou a viver com outro homem.

Desde os primeiros instantes, O Lugar Onde Tudo Termina dá a ideia de risco, com movimentos em falso e suas possíveis fatalidades. O perigo é representado pelos três motociclistas no globo da morte, girando em grande velocidade, em espaço exíguo.

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Mais tarde, quando a ação passa a Avery, vê-se o comodismo da vida familiar, do policial correto e pouco disposto a se envolver na corrupção levada à frente pelos colegas de profissão. Enquanto Luke alimenta-se do risco, Avery sintetiza a busca pela estabilidade em um meio cheio de corrupção e tropeços.

Em O Lugar Onde Tudo Termina, o crime é tão caro quanto a honestidade. Não estranha que seres sinceros – sim, sinceros demais – sejam o ponto de humanidade inesperada, distantes como estão do vilão e do herói.

Os filhos, depois, pagam pela ausência dos pais. O de Luke (Dane DeHaan) quer descobrir suas raízes, enquanto o de Avery (Emory Cohen) termina como adereço necessário ao agora político em época de campanha, alimentado pela fama de herói.

O fim não é muito diferente do início. O filho de Luke aprende com os erros do pai, preferindo a estrada às raízes. Segue a lugar nenhum – contra a ideia de uma sociedade justa e acolhedora, ou apenas para fugir dela. Tem motivos de sobra para tal.

(The Place Beyond the Pines, Derek Cianfrance, 2012)

Nota: ★★★☆☆

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As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang

Um professor, personagem pequena em As Coisas Simples da Vida, pede licença à moça que assiste à briga no interior do apartamento e em seguida fecha a porta. Ele volta-se à câmera, ao espectador, e impede que se veja tudo. A menina, do lado de fora do apartamento, permanece ali, paralisada, ouvindo a briga no interior do mesmo espaço.

A sequência, realizada com grande habilidade pelo mestre Edward Yang, é uma das várias em que o espectador não é convidado a ver toda a ação – nesse caso, é convidado apenas a ver a metade: a menina que permanece do lado de fora do apartamento.

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A garota leva o espectador a esse ponto de vista, ao mesmo tempo ao impedimento, ao cinema de grandes mestres que Yang persegue: a possibilidade de ver muito quando apenas se vê a metade, a importância desse impedimento para que o próprio espectador construa – a distância – a totalidade do espaço e da ação.

É necessário fazer escolhas, diz Yang – como também diziam mestres do minimalismo, dos retratos da vida cotidiana, como é o caso de Yasujiro Ozu. Inevitável citá-lo aqui.

Como Ozu, Yang chega ao equilíbrio perfeito em seu último filme, obra sobre vidas paralelas, sobre familiares, vizinhos, pessoas que se esbarram na grande Taipei, entre prédios e escolas, casamentos e funerais. Gente ao mesmo tempo conhecida de longa data, ao mesmo tempo reclusa em seus afazeres e características.

Situa o espectador no espaço, nas pessoas, por meio de ambientes conhecidos. A eles volta várias vezes. E a ideia do coletivo vem à tona como crônica, permite tons cômicos, como se nada fosse suficientemente dramático para ser considerado “questão de vida ou morte”. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser: os mais velhos morrem enquanto são vistos pelos mais novos, que se confessam, que tentam entender o mundo ao redor.

A começar pelo pequeno Yang-Yang (Jonathan Chang), que questiona o pai sobre a possibilidade de compreender tudo à volta quando se vê apenas a metade; ou sua irmã, Ting-Ting (Kelly Lee), a menina que fica do lado de fora do apartamento e, como outros, que encontra na avó em coma alguém para dizer o que não diz aos demais.

Vida e morte, lado a lado, em uma história graciosa sobre pessoas diferentes, ao contrário do que se viu antes em Uma Confusão Confuciana, com sua comédia de tropeços, ou ainda antes em Um Dia Quente de Verão, cujo olhar ao passado – o do próprio Yang – explora a intensidade dos conflitos entre adolescentes.

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Toda obra de Yang reflete questões sociais de Taiwan a partir do olhar pessoal, a partir de personagens que deixam ver apenas suas metades – ou de um cinema que se escora nessa proposital limitação para paradoxalmente tudo revelar. Não por acaso, Yang-Yang fotografa a nuca das pessoas para que estas possam ver o oposto.

O crítico Inácio Araújo lembra que o filme representa um cinema que busca refletir a própria vida e, por isso, e para muitos, não acolhe o espetáculo esperado. Por que ir ao cinema ver o que se vê na vida cotidiana? Inácio responde: “Todos, ou quase, vivenciamos a morte da mãe, por exemplo. O fato de essa experiência ser universal não a torna banal. Mostrar isso é fácil. Bem mais complexo é criar a teia que une a infância à adolescência, essa à maturidade e essa ainda à velhice – como faz Yang com desenvoltura espantosa”. O desafio é mostrar o que há de profundo na simplicidade.

Há o cinema banal, sim, que passa longe de Yang – como passava de Ozu. No caso desses mestres, o que importa é legar dramas individuais à teia do coletivo. O sentido está nas relações, na maneira como os jovens têm sentido maior enquanto circulam a avó em coma, ou o pai que reencontra seu grande amor de juventude.

Pontos que se tocam o tempo todo. Se a exposição da vida moderna dava vez ao vazio em Uma Confusão Confuciana, em As Coisas Simples da Vida Yang parece ter retomada a fé nas pessoas. A beleza está acima do que há de melhor e pior nessas personagens. Elogio ao que há de belo em todas as “coisas simples”.

(Yi yi, Edward Yang, 2000)

Nota: ★★★★★

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