Na Vertical, de Alain Guiraudie

A aparência é a de um sonho. Não acordar, manter-se preso até a tela preta dos créditos finais. O protagonista vive aqui um delírio de eterno retorno: as mesmas pessoas, as mesmas estradas e curvas, os mesmos campos. Não escapa até o encerramento.

O diretor francês Alain Guiraudie é inclinado ao confinamento. Na Vertical, ao contrário do anterior Um Estranho no Lago, apenas dá sinais de fuga de um mesmo espaço. É, na verdade, tão fechado quanto o antecessor – a ser somado, ainda, o tom de parábola, cujas voltas e tropeços fazem pensar em Laranja Mecânica.

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Nada está fora do lugar. O aparente radicalismo engana: Guiraudie lança à tela o cotidiano oculto, imagens com as quais o espectador, com frequência, não sabe lidar. A começar pela vagina, tão próxima, ou pelo pênis; ou mesmo o sexo entre o protagonista e um homem mais velho, à beira da morte, que decide dar fim à própria vida.

A relação íntima entre homens tem espaço no cinema do diretor francês. É o que se vê desde os primeiros instantes: pela estrada, a ceder sua visão ao público, o protagonista, Léo (Damien Bonnard), fica encantado com um jovem que passa pelo local. Retorna e aborda o rapaz. Convida-o para fazer um teste de ator, para trabalhar no cinema.

Léo é roteirista. Não tem casa. Ao que parece, nutre-se de uma vida sem raízes para escrever seus roteiros. Aprende olhando e, como deixa ver em um primeiro diálogo com uma mulher camponesa, tem respeito pela natureza. Ela, que mais tarde terá um filho com ele, arma-se para enfrentar os lobos que rondam as ovelhas de sua propriedade.

Ao contrário dela, Léo parece ver equilíbrio no ataque dos animais. Para ele, os lobos precisam se alimentar. A discussão não se prolonga. Logo ambos estão aos beijos. E ela, atraída pelo forasteiro, convida-o a ficar em sua casa. Marie (India Hair) esconde o corpo, o sexo, e isso se torna ainda mais revelador quando o cineasta expõe seus contornos e os momentos íntimos com o companheiro.

Também vive na casa de campo o pai de Marie, interpretado pelo gigante Raphaël Thiéry. Um homem estranho que revela, mais tarde, estar interessado em Léo. As personagens são imprevisíveis nos filmes de Guiraudie. Soam não raro artificiais e distantes. No caso dos homens, sobretudo, há sempre a necessidade de toque, de se suprir as dores do cotidiano pelo desejo da pele.

O que talvez explique o gesto de Léo ao fazer sexo com o homem mais velho (Christian Bouillette), à beira da mesma estrada à qual o protagonista sempre retorna, na cena mais forte e inesperada desse belo filme. É o momento em que a morte encontra o desejo e o prazer físico, ato em que o que mais parece brutal converte-se em gesto terno.

É nessa mesma estrada que surge o garoto (Basile Meilleurat), o rebelde de olhar atravessado, distante, andrógeno, um anjo do mal. É como o Tadzio de Morte em Veneza, um rapaz fechado em si mesmo, nem bom nem mal. O que resta é sempre mistério, fúria, indiferença. O espectador entende o fascínio que causa.

A liberdade, descobre Léo, é ilusória. A companheira, que já tem dois filhos, vai embora e deixa o bebê recém-nascido aos seus cuidados. Sua vida muda. E inesperadamente, o herói dessa estranha história aprende a gostar da criança. Torna-se não o pai mais correto, mas o pai possível: circula com o bebê para todos os lados, em deformada aventura, até o ponto em que se vê nu, sem nada, e é obrigado a voltar ao ponto de partida – sempre o mesmo lugar, o campo de ovelhas.

A aparência de que há muitos caminhos, muitas possibilidades, é logo sepultada: Léo descobre, em suas andanças, que deverá viver entre lobos e cordeiros, nos mesmos campos abertos, entre homens desesperados por um gesto afetuoso. Cansado de tentar a fuga, ele rende-se àquele ambiente belo e cercado por feras.

(Rester vertical, Alain Guiraudie, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie

À beira de um lago, em ambiente afastado, homens encontram-se para fazer sexo. Ao que parece, essa é a única finalidade das idas ao local. A cada início de dia, ou a cada chegada do protagonista ao mesmo espaço, um bosque, a câmera registra com distância os carros parados, depois o breve caminho, a porta de entrada àquele universo.

O filme de Alain Guiraudie representa esse ritual de repetição, de eterno retorno: não tem começo ou fim definido, e tem em seu desenrolar alguns crimes. Há, como estopim do suspense, o assassinato de um rapaz pelas mãos do próprio amante, do qual o protagonista, Franck (Pierre Deladonchamps), é testemunha, durante o entardecer.

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O problema é que o rapaz, que retorna ao local, à beira do lago, quase todos os dias, vê-se interessado pelo criminoso. Já havia trocado olhares com ele em dias anteriores. O mesmo estava em seu radar. Continuaria a atraí-lo mesmo após o crime. À frente, ele confessará estar apaixonado pelo assassino, Michel (Christophe Paou).

Em suas idas à beira do lago, em seus mergulhos nas águas claras, azuis, Franck termina fazendo outro amigo – não um amante de ocasião, mas apenas um amigo para alguns diálogos, à possibilidade de uma conversa franca, talvez às raias do tom existencial em Um Estranho no Lago. É o pacato Henri (Patrick d’Assumçao).

Aos poucos, cada intensão é delineada, cada personagem assume seu papel. Ou se assume, enfim. E cada peça faz sentido em um filme que mais aprisiona do que liberta – apesar da natureza, apesar da aparente liberdade entre os frequentadores daquele espaço. Guiraudie faz um dos grandes filmes recentes ao apostar no espaço aberto como fechado, ao limitar suas criações humanas a pouco ou quase nada: o que o espectador sabe é o que se resume àquele local, aos gestos, ao apelo sexual.

É o espaço hedônico, mas também o do crime. O universo de liberdades, estritamente masculino, não permite a liberdade total: o rapaz ao centro, que se diz apaixonado, tem seus desejos confrontados com a possibilidade de ser ele próprio a próxima vítima de seu amante. Resta saber se seu medo sobrepõe-se às suas vontades.

A somar a essas peças há o investigador, o homem de fora que lança perguntas aos frequentadores. Volta a Franck, claro, aquele que responde – ou deveria responder – às dúvidas do espectador. E os diálogos entre ambos são reveladores. “Não acha estanho? Encontramos um corpo dias atrás e todo mundo continua vindo aqui como se nada tivesse acontecido”, observa o inspetor. “A gente não pode parar de viver”, responde Franck, o que dá a exata ideia de suas necessidades.

Os espaços do lago e do bosque fornecem liberdades. Os homens fundem-se à natureza, vivem seus desejos, trocam intimidades. No início, antes de começar a se relacionar com Michel, Franck vaga pela mata em busca de um parceiro. Encontra alguém para satisfazê-lo, alguém que não aceita fazer sexo sem camisinha.

O que leva à cena da masturbação, da busca pelo desejo sem penetração, e o que faz pensar no naturalismo da direção de Guiraudie, na forma direta como trata seus seres. Depois, já na companhia de Michel, leva à cena do sexo oral, ao prazer completo mais tarde com a penetração. O diretor, nesse caso, precisa mostrar tudo, ou quase: é da relação desses homens, de sua conexão, que trata o filme.

Nesse ambiente à beira do lago, morte e desejo estão próximos demais. A luz que rebate na água, mais de uma vez, confere um efeito único aos observadores, à medida que os corpos nus invadem o lago. E, no bosque, com a chegada das sombras, resta a ideia de fim, de aniquilamento, o que só pode ser resolvido com um corte e a imagem do espaço que serve de estacionamento aos veículos dos mesmos frequentadores.

O filme imprime um círculo vicioso. O desejo antes de qualquer coisa. A paixão confessada por Franck é incerta: a impressão é sempre a da busca pela carne. A presença de Henri dá outro contorno, o de um homem à procura de seu próprio fim: ele compreende que tal local poderia lhe conferir essa possibilidade, pois é frequentado também por um possível assassino em série.

Nos filmes anteriores de Guiraudie, os homens retornam à mata, ou a um ambiente bruto. Descobrem a si mesmos. Em O Rei da Fuga, o tom cômico infla a aparência de sonho, na trajetória de um homossexual que se vê subitamente atraído por uma adolescente, com a qual é obrigado a fugir – à mata – para consumar o sexo.

Mais interessante é O Velho Sonho que se Move, média-metragem no qual Guiraudie já antecipa a relação masculina de Um Estranho no Lago: apesar de mais resistência, e mesmo em uma situação dramática, em galpões ou no banheiro de uma fábrica prestes a fechar, os homens confessam desejos, chegam até a se tocar.

Homens que ainda não encontraram o espaço fechado do lago, do bosque, da aparência de liberdade entre a água, as pedras e a mata: o espaço aberto aos desejos sexuais e, para alguns, aos de morte. Para Franck, o eterno retorno a esse espaço cobra um preço alto.

(L’inconnu du lac, Alain Guiraudie, 2013)

Nota: ★★★★★

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Oito grandes filmes sobre o mal-estar da vida urbana

A cidade grande é o ambiente perfeito para histórias de pessoas solitárias, invisíveis, em busca de afeto. Histórias sobre impessoalidade, niilismo, dor, perda, sobre vidas contra a frieza ao redor. Na lista abaixo, a violência divide espaço com a tragédia familiar, o desejo de fugir com a fuga ao sexo. Grandes filmes sobre a vida moderna e seus espaços.

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A Turba, de King Vidor

No interior dos grandes prédios, homens em fila se assemelham a formigas. Nessa obra-prima de Vidor, o protagonista (James Murray) muda-se para a metrópole e encara o competitivo mercado de trabalho. Mais tarde, ele casa-se e tem filhos. As condições financeiras não mudam tanto. E, para piorar, sofre uma tragédia na família.

Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder

Os escritórios de Nova York foram inspirados nos espaços de A Turba. A esse mal-estar gerado pela arquitetura, Wilder acrescenta a vida de homens e mulheres em encontros corriqueiros, seres solitários que se esbarram apenas no elevador. Por ali, o protagonista (Jack Lemmon) aluga seu apartamento para encontros de amigos do trabalho.

São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Sérgio Person

A trajetória de Carlos (Walmor Chagas), funcionário de uma grande empresa, pouco a pouco cansado de sua vida. No filme de Person, os sinais da grande cidade já podem ser vistos na incrível cena de abertura, com o reflexo dos prédios no vidro do apartamento, enquanto o casal briga em seu interior. Obra-prima do cinema nacional.

Playtime – Tempo de Diversão, de Jacques Tati

O senhor Hulot (Tati) mete-se em outra confusão, dessa vez entre prédios futuristas, no trânsito, em salas envidraçadas, um restaurante e um aeroporto. Acinzentado, o filme reproduz um universo de pessoas presas a pequenos quadrados, ou a girar em círculos, como se vê em uma das cenas finais. Apesar de cômico, a crítica é contundente.

Taxi Driver, de Martin Scorsese

Travis (Robert De Niro) vaga por dias e noites de Nova York em seu táxi. Esbarra em bandidos, cafetões, políticos influentes e uma prostituta que deseja salvar. Quando percebe que está sendo cercado por tudo o que há de pior nessa cidade, arma-se e parte para a luta. Marco dos anos 70, é o filme mais importante da carreira de Scorsese.

Os Terroristas, de Edward Yang

Diferentes personagens esbarram-se nesse grande filme taiwanês. Há, por exemplo, a mulher que sonha em escrever seu livro, seu marido que almeja um cargo melhor na empresa, ou mesmo o fotógrafo confinado em um quarto escuro, com suas fotos e, a certa altura, ao lado de uma fugitiva. A cidade é quadriculada, a vida tem frieza.

Naked, de Mike Leigh

Algumas horas na companhia de Johnny (David Thewlis), um homem que abusou de uma mulher, furtou um carro e mudou de cidade. Um homem desesperado, cujas palavras são armas contra os outros – e contra o espectador. De Manchester a Londres, ele encontra todo o tipo de gente. Como ele, os demais não encontram qualquer saída.

Shame, de Steve McQueen

O homem ao centro, na pele de Michael Fassbender, é viciado em sexo. Não consegue parar de consumi-lo – de maneira física ou visual. Em suas andanças, McQueen registra uma cidade impessoal, de pessoas em busca de prazeres e encontros momentâneos – embaladas pela canção “New York, New York”, na voz de Carey Mulligan.

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Coração Selvagem, de David Lynch

A confirmação de que David Lynch está levando o espectador a qualquer lugar exceto ao esperado é o que torna Coração Selvagem uma delícia. Nas pequenas situações – como na empolgação, nos chutes e na dança do casal – ou no bolo todo – na trama de perseguição que logo esfarela –, não se pode esperar nada convencional.

Esse filme de estrada inclui um casal em fuga, mas não se sabe para onde. Talvez para algum paraíso perdido, para a família que não tiveram, para o sonho dos tijolinhos amarelos de O Mágico de Oz – clássico sobre o qual a obra de Lynch debruça-se em paralelos e citações, seja pela aparição de uma bruxa má ou de uma bruxa bondosa.

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E talvez aqui com uma nova Dorothy, interpretada com força por Laura Dern, menina distante de Oz. Sua vida é recheada de problemas: sofreu um estupro, perdeu o pai em um incêndio e é filha de uma mãe dominadora. Em um rapaz qualquer – louco por aventuras, violento, fã de Elvis Presley – ela encontra sua forma de escapar.

Ele, vivido por Nicolas Cage, é preso depois matar um homem enviado pela mãe da amada, ainda nos primeiros instantes, ao esmagar seu crânio ao olhar da namorada. O sangue da abertura aponta às intenções de Lynch: a violência vem em doses exageradas, de maneira abrupta, estranha, a atrapalhar os planos do casal.

A essa relação familiar unem-se alguns mafiosos. Também o detetive apático de Harry Dean Stanton, ou a mulher misteriosa, de peruca loura, que veste roupas de couro e se posta em um casebre aos pedaços no meio do deserto, na pela de Isabella Rossellini, a musa do filme anterior de Lynch e talvez sua obra máxima, Veludo Azul.

Como no filme anterior, Coração Selvagem investiga o subterrâneo da sociedade americana. Recorre às moscas, a outros insetos, aos seres que emergem em meio à podridão, sobre o vômito da menina loura que termina uma mulher formada, grávida, em um quarto de hotel barato nos confins dos Estados Unidos. Talvez o espectador relute em acreditar que tal vômito – cujo mau cheiro é citado por mais de uma personagem – pertença mesmo à figura de Dern, a garota perseguida pela mãe.

É, para Lynch, a recriação de O Mágico de Oz como filme de terror: a mulher que se transfigura em bruxa, do mundo real ao imaginário, não está mais fora da casa da menina que cai na estrada. Está agora entre sua família, é sua própria mãe (Diane Ladd). E ora ou outra é possível ver as reações dessa mulher sozinha e desesperada, como no momento em que pinta a face e as mãos com batom vermelho.

Tal cor é constante ao longo do filme, do fogo na casa de Lula (Dern) às cenas de sexo nas quais Lynch parece não se importar em imprimir falsidade. A relação erótica entre o casal dá-se muito mais pelos olhares e expressões – em amor louco – do que pelo contato real. Vivem pelo desejo, alheios (ou quase) à realidade.

Surge também, a certa altura, um enlouquecido Willem Dafoe. De gengiva à vista, dentes pequenos e escuros, monstruoso. É quando se percebe que tudo não passa de uma viagem à liberação dos desejos, uma mistura de repulsa e excitação, como na cena em que Lula e a personagem de Dafoe estão sozinhas no quarto do hotel.

É quando ele tenta arrancar da moça uma breve confissão de seu desejo, talvez apenas um sussurro, ao passo que ela vê-se desarmada perto desse ser repugnante. Ninguém duvida da repulsa dela. É bom não duvidar de que ali exista também algum prazer oculto e inesperado, em comunhão com o universo subterrâneo de Lynch.

(Wild at Heart, David Lynch, 1990)

Nota: ★★★★☆

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Z: A Cidade Perdida, de James Gray

A jornada de Percy Fawcett pela Amazônia tem mais sonho que realidade. O diretor James Gray, com roteiro de sua própria autoria a partir do livro de David Grann, divide o tempo entre passagens do explorador em busca da cidade perdida e situações nas quais a selvageria impõe-se de outras formas, como na caçada a um cervo, no início, ou na Primeira Guerra Mundial.

O que há de irônico aqui – ainda que o filme em momento nenhum desdenhe das crenças do herói, e tampouco o trate como louco – é essa tentativa de encontrar uma civilização quando só restam sinais de selvageria. E Fawcett, como mostra Gray no desfecho, terminará consumido pela mesma. Rui o sonho da civilização.

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O militar converte-se em explorador quando é levado pelo Império Britânico a uma missão na América do Sul, entre a Bolívia e o Brasil, na Amazônia, para o mapeamento de seu território. Os ingleses têm interesse no fim dos conflitos locais, o que tem feito subir o preço da borracha. Os homens seguem então à mata fechada.

Três viagens à selva são mostradas ao longo do filme. Fawcett primeiro lamenta: não entende por que deixou a família para trás, na Inglaterra, para invadir território tão hostil. Logo muda, encanta-se com a possibilidade da aparência selvagem e desordenada abrigar uma cidade. Isso ocorre após ele encontrar alguns objetos de cerâmica na floresta, o suficiente para sustentar suas crenças.

De volta à Inglaterra, Fawcett protagoniza um debate que parece ter saído de A Volta ao Mundo em 80 Dias ou algo do tipo, quando um bando de britânicos bem vestidos colocam-se a desconfiar dos outros, todos sedentos por novidades e desafios, nos espaços de um clube local. Todos a esbravejarem o poder do homem branco.

De volta à mata, o explorador descobre novas esculturas sobre a rocha, uma tribo canibal, e se vê outra vez ao lado de homens desconfiados, doentes, sem forças para continuar a empreitada. Vê-se sem comida, a certa altura, o que inviabiliza a missão. Difícil não pensar em Aguirre, a Cólera dos Deuses, de Werner Herzog, no qual os homens são pouco a pouco dizimados à medida que seguem pelo rio.

E se não chega à insanidade do filme alemão ou mesmo de Apocalypse Now (as comparações são quase incontornáveis), isso se deve à visão clássica de Gray, à maneira como prefere a calmaria e a linearidade, à aparente retidão das personagens e até mesmo aos contornos de tragédia silenciosa do homem controlado até o fim.

Seus homens não explodem nem mesmo quando tudo parece terminado, quando percebem ter perdido a batalha. Fawcett não desiste da missão com facilidade: é o caçador que consegue abater o cervo em uma disputa, o militar que conduz um bando de homens contra os alemães na Primeira Guerra e quase termina cego. Na pele do protagonista, Charlie Hunnam concentra força e humanidade.

A terceira viagem à Amazônia, à frente, ocorre por insistência do filho, Jack, interpretado por Tom Holland. O garoto aprende a gostar da caça e, como o pai, busca na mata uma aventura ou a possibilidade de escrever seu nome na história. São louvados pelos outros no caminho, embrenham-se de novo no meio do nada, encaram índios enquanto estes se mantêm a distância, incompreendidos, indecifráveis.

Como o filme anterior de Gray, Era uma Vez em Nova York, a imagem final de Z: A Cidade Perdida mostra a caminhada de uma personagem por meio de seu reflexo. Vê-se, através do espelho, um espaço de sombras, a mulher (Sienna Miller) que ainda aguarda o retorno do marido e do filho, a mulher que mantém a esperança de que ambos talvez tenham encontrado a sonhada civilização perdida entre a mata selvagem.

(The Lost City of Z, James Gray, 2016)

Nota: ★★★★☆

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